Viajar na Linha de Sintra é muito mais do que apenas levar pessoas de um lugar para outro, que, oferecendo o vislumbrar das zonas em volta, aproxima os passageiros a uma cultura que se constroi ao redor dos carris.
Aqui em Agualva- Cacém, um local densamente povoado, situa-se a primeira transição dessa linha, que separa aqueles que se destinam a Meleças e Sintra, ou, Oriente e Rossio.
Mas o que separa mesmo as pessoas, são as oportunidades
O transporte público, sendo uma necessidade básica, deve ser tratado como uma prioridade social e deve corresponder às expectativas de um transporte acessível às necessidades de todos. Mas não é isso que sentimos. Os problemas são os mesmos de sempre. Os horários estão desajustados há décadas.
O problema do desajuste de horários não é de hoje, nem de há 10 anos. A carência de tal cuidado arrasta-se ao longo de décadas, acabando por tornar-se um aspeto crónico dos transportes públicos na periferia. A população aumenta, mas o espaço permanece estático. O longo tempo de espera entre comboios, as constantes greves que acarretam atrasos e supressões, o número baixo de carruagens, são os obstáculos que agravam as condições de viagem, cujos passageiros da Linha de Sintra são obrigados a enfrentar, mesmo para quem paga por tal serviço precário.
O último comboio para parte à 00:20, e o mesmo para o regresso à periferia, pela 1:08h da manhã. Fora desses horários, cruciais para quem trabalha de madrugada, não existem alternativas que possam responder a emergências ou acasos e, até mesmo, o regresso a casa depois de momentos de lazer, sendo a única alternativa viável, recorrer a um Uber. Uma opção que se encontra longe de ser acessível para todos, sobretudo, para quem vive a contar trocos para os seus bens ou para cobrir as despesas do passe. Quantos de nós ficámos acordados até às 6h da manhã para apanhar o primeiro comboio? Quantos não conseguiram cumprir com horários noturnos por conta do último comboio? Quantos passam por isto todos os dias?
Neste mural falo sobre isso. Sobre nós. Sobre quem espera.
Sobre quem resiste, há decadas. Sobre quem merece mais.
EN
Traveling on the Sintra Line is much more than just taking people from one place to another, as it offers a glimpse of the surrounding areas and brings passengers closer to a culture that is built around the tracksHere in Cacém, a densely populated place, lies the first transition point of this line, which separates those heading towards Meleças and Sintra, or Oriente and Rossio.
But what truly separates people are opportunities.
Public transport, being a basic necessity, should be treated as a social priority and should meet the expectations of a service accessible to everyone’s needs. But that’s not what we feel. The problems are the same as always. The schedules have been misaligned for decades. Trains take too long. They come full.
The problem of misaligned schedules is not new, nor is it from ten years ago. The lack of attention to this issue has dragged on for decades, eventually becoming a chronic aspect of public transport in the outskirts. The population increases, but the space remains static. The long waiting time between trains, the constant strikes that lead to delays and cancellations, and the low number of carriages are the obstacles that worsen travel conditions, which passengers on the Sintra Line are forced to face, even those who pay for such a precarious service.
The last train leaves at 00:20, and the same goes for the return to the outskirts at 1:08 in the morning. Outside these times, which are crucial for those who work early shifts, there are no alternatives that can respond to emergencies or unexpected events, not even getting home after moments of leisure, with the only viable option being to call an Uber. An option that is far from affordable for everyone, especially for those who count coins to afford their essentials or cover the cost of the monthly pass. How many of us have stayed awake until 6 a.m. just to catch the first train? How many have missed night shifts because of the last train? How many go through this every day?
In this mural in Cacém, I talk about that. About us. About those who wait. About those who have endured for decades. About those who deserve more.
Portugal, Sintra, Cacém 2025 / Dimensions: 150 m2
